Como sabemos claramente, o mercado da construção civil não está no seu melhor momento: Diminuição no número de novos lançamentos imobiliários, contenção dos incentivos governamentais, demissões em massa em diversas construtoras. Enquanto alguns acreditam no absoluto apocalipse, outros mantém o otimismo optando pela escolha lógica de se reinventar procurando oportunidades na crise.

Apesar de ser uma frase parcialmente inconveniente, crises são naturais, cíclicas e irá separar o joio do trigo referente aos diversos profissionais atuantes nos tempos de bonança iniciados na década passada. Como diz o ditado, “a dificuldade é a mãe da invenção”, e como inventores, arquitetos mais do que nunca possuem um papel crucial nesse processo de reformulação do mercado. Mas como a Arquitetura pode atuar na ajuda da retomada saudável do setor da construção civil?

NÃO APENAS CONHEÇA, MAS DOMINE AS REGRAS DE PROJETO

Um arquiteto eficiente é acima de tudo um bom advogado, que precisa ter o conhecimento das leis e defender suas concepções muito acima do puro apelo estético. O conhecimento amplo das regras da legislação vigente leva a um projeto mais conciso, otimizado e consequentemente a um maior lucro para o construtor ou incorporador. Repito: Uma parte significativa dos lançamentos do mercado possuem espaço para otimizações e melhorias substanciais.

O estudo das regras seria até simples se cada cidade não possuísse um plano diretor exclusivo, além de leis, decretos, normas e zoneamentos específicos, que geram uma dificuldade a mais para o arquiteto tomar conhecimento para cada projeto. Se não fosse o suficiente, muitas regras são ambíguas ou mudam no decorrer dos anos. A solução não é mágica, necessitando ao profissional um amplo e intensivo estudo das leis além de boas conversas na secretaria de urbanismo de cada cidade.

Cabe também ao arquiteto o conhecimento das normas técnicas relacionadas a tipologia de projeto a ser estudada, como por exemplo as bem conhecidas NBR 9050 e a NBR 9077. É importante citar que leis estaduais se sobrepõem as normas técnicas e podem ser mais restritivas, como por exemplo as INs do Corpo de Bombeiros surgidas em 2012 no Paraná e em 2014 em Santa Catarina, que se sobrepoem a famosa NBR 9077 no que se refere a saídas de emergência em edifícios. E lembre-se: na dúvida, procure uma consultoria qualificada ou na pior das hipóteses invista na solução mais restritiva para não gerar um arrependimento posterior. Uma olhadinha nas normas do International Code Council também pode ser bem interessante, pois muito que conhecemos parte de lá.

INVISTA NO QUE É REALMENTE IMPORTANTE

Procure com o arquiteto e a equipe de engenharia idéias para a otimização de cada empreendimento em particular, até mesmo aquelas fora-da-caixa que foram mencionadas por alguém na empresa mas acabam por ficar esquecidas pela falta de tempo naqueles tempos de mercado aquecido. A dica para o construtor é não pensar apenas no que construir, mas simplesmente não construir. Retire do projeto itens que estão nas entrelinhas do custo de obra e que não caracterizem uma perda qualitativa de produto, como detalhes construtivos inconvenientes ou áreas sub-utilizadas. Vale até mesmo julgar etapas construtivas que envolvem pouco custo de material mas que utiliza muita mão-de-obra. Opte por metodologias construtivas mais eficientes mas que ao mesmo tempo se caracterizem como qualidade para a cultura do brasileiro. Lembrando que retirar secretamente ferro da estrutura ou utilizar materiais de segunda linha não caracteriza muito bem essa idéia de economia inteligente. Não opte também por economias simplistas, pois se o projeto parecer barato e deslocado do seu público-alvo para você, parecerá ainda mais para o agora ultra-cauteloso cliente. E principalmente, invista mais tempo em um bom projeto assim como outros países mais desenvolvidos e com mão-de-obra mais cara o fazem. Você poupará de forma muito mais substancial no cronograma construtivo e terá mais gás para contornar a crise se a construção ocorrer de forma mais fluída.

DURANTE A BOLHA IMOBILIÁRIA E POR TODA A ETERNIDADE, DIFERENCIE-SE!

Briefings de produto defasados também necessitam ser revistos imediatamente. Sendo um pouco óbvio: Espaços de cinema e lan houses eram moda em diversos edifícios residenciais, mas nos dias de hoje todos os potenciais compradores possuem poder aquisitivo para comprar também uma TV de LCD ou um smartphone. Vale a pena insistir nisso?

Investir em programas de projeto diferenciados também podem gerar um ótimo benefício. Alguns empreendimentos optam por uma área de serviço reduzida nos apartamentos e uma lavanderia coletiva. Um residence service pode ser interessante dependendo do poder aquisitivo e o fluxo de trabalho e lazer do cliente em potencial. O ideal é fazer a lição de casa com uma boa pesquisa de mercado em conjunto com seu time, atraindo sempre a maior multidisciplinaridade possível.

Lidar com itens de ciência exata são mais fáceis, o problema são aqueles atrativos que possuem um peso abstrato para o eventual cliente, como por exemplo detalhes de uma fachada ou paisagismo. Para pessoas mais visuais questões como essas podem fazer a maior diferença na hora da compra, mas para outras passar totalmente despercebido. É interessante aqui realizar também um estudo de mercado, podendo até ser feito na linha do “do-it-yourself” se com metodologia, de forma imparcial e com cautela.

TRANSFORME O FUSCA EM UMA FERRARI PARA SEU PÚBLICO-ALVO

Uma equipe de projeto integrado é como a internet, ouvimos dizer que veio para ficar. Aliar a arquitetura com os projetos complementares de estrutura, elétrica, hidráulica, ar-condicionado, automação, entre outros, a um briefing bem pensado logo no início do processo podem fazer toda a diferença. Se todos os profissionais estiverem bem dispostos, existem oportunidades de engenharia de valor impossíveis de serem detectadas em um processo tradicional, como descritas em nosso site, ou até de forma mais agressiva neste livro da Oscia Wilson.

Quesitos sustentáveis, ao contrário do que muitos pensam, podem ser aplicáveis a custo-zero se encarados como parte da essência do projeto e não como uma jóia a ser colocada posteriormente. E como opinião pessoal sustentabilidade boa é aquela que contribui para o cidadão e o seu bolso no menor tempo possível, ponto final. Cada implementação precisa ser analisada e se provar benéfica na simples conta do benefício versus o payback, em anos.

Estudos de eficiência energética podem ser muito bem vindos nesses dias de pleno aumento da tarifa, mas se forem realizados de forma prática e sem colocar no limbo todo um cronograma projetual, que já é complexo por si só com toda a interface da arquitetura e os projetos complementares. Os estudos de energia que antes eram um processo complicado (indefinidos e demorados como programas espaciais da NASA) hoje podem ser implementados de forma mais fluída e prática graças ao cloud-computing. A grande vantagem é que em edifícios o resultado é multiplicado pelo número de pavimentos da edificação, gerando um benefício real ao usuário e também ao construtor se aliado a um bom plano de marketing, destacando-se perante outros empreendimentos. E antes de pensar na colocação de dezenas de módulos fotovoltaicos no seu edifício para economizar 5% de energia, analise quantos módulos você poderia economizar caso tomasse um partido arquitetônico ambientalmente correto e que economizasse 30% sem painel nenhum.

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Written by Filipe Boni